13 de jun de 2009


O que a gente nunca esquece
O ser humano se emociona com coisas pequenas. A mais conhecida frase da história da propaganda, O primeiro Valisere a gente nunca esquece, além do marco na venda de sutiãs no Brasil, entrou para a nossa cultura comportamental. Pela singeleza da frase. Fazendo um contraponto com a campanha publicitária, tem uma iguaria que nunca me saiu do gosto, e principalmente da memória: pé de galinha.
Há muito tempo que eu não comia essa parte da penosa, pois não é servida nos restaurantes, por onde faço refeições.
Quando criança, um dos pratos servidos lá em casa, era pé de galinha. Talvez, por ser mais barato do que os outros pedaços, os pés faziam parte do cardápio rotineiro.
A roda do tempo girou..e por muitos anos, o meu paladar não encarava tal petisco.
Pois não é que o casal Chico Rocha (foto) e dona Mana, a Socorro, sempre me presenteia com almoços, encabeçados pelo gostoso acepipe!
Algo assim, como que as paredes das minhas lembranças se enchendo de momentos saborosos: a infância, a vida lá atrás, a primeira família, os pequenos prazeres, a hora do almoço...
Hoje, mais uma vez, comi pé de galinha.

12 de jun de 2009


Receita do Pe. Cícero curou Dona Odele

Sempre tive minhas dúvidas com relação ao comportamento controvertido, na política e na religião, do Pe. Cícero Romão Batista. Já li muito sobre o Patriarca de Juazeiro, amado e venerado pelo povo e usado pela igreja católica apostólica romana (por conta das vultosas quantias que entram para os cofres da instituição religiosa). Não vem ao caso, agora esmiuçar sobre isso (farei em outra oportunidade).

O que acontece é que, o casal Chico e Mana Rocha - meus amigos - falou que a mãe dela (no caso D. Mana, aliás batizada como Socorro), é uma devota incondicional do Pe. Cícero, e que até tinha sido curada pelo sacerdote.

Achei interessante a história. E fui saber dos pendores homeopáticos do padre em questão.

Conversei e fotografei D. Odele, pessoa simpática e que demonstrou o seu carinho e devoção pelo mito do Cariri.

De tanta empolgação e crença, Dona Odele até disse que, a partir daquele dia, ia me incluir nas orações ao seu venerado.

Até que uma reza faz bem.

Vejam a matéria:

Maria Odele Martins, 84 anos, ainda hoje repassa para familiares e amigos a receita de medicamento caseiro prescrito pelo Padre Cícero Romão Batista (1844/1934) “Eu passava acordada, noites e mais noites, sem poder respirar pelo nariz, com crises fortes de sinusite, até que meu pai, Joaquim Martins de Morais, me levou à presença do Meu Padim. Com o santo remédio indicado por ele, fiquei boa e nunca mais meu nariz ficou entupido. A partir de então, tenho ensinado a muita gente”.

A receita

* Colocar dentro de uma panela grande, fervendo: três unidades de cabacinha (cortada em cruz), batata de purga e cabeça de negro.

* Depois, deixa esfriar e com a cabeça enrolada por uma toalha inala o remédio preparado pelo nariz.

* Em seguida, a pessoa medicada deve dormir.

Um lembrete: todas as vezes que o Pe. Cícero receitava seus remédios, terminava com esta oração: “Reze o rosário da Santíssima Virgem todos os dias até que Deus lhe salve e lhe abençoe e aos seus”.

Além de Dona Maria Odele, outras duas irmãs dela (Maria Zenilda Martins de Lavor, 81 anos e Francisca Martins Sobreira, 74 anos) são devotíssimas do Padre da Meca do Cariri.

Dona Maria Odele, ainda criança, viu o patriarca de Juazeiro do Norte pela primeira vez, quando ele, já afastado pela cúpula da Igreja Católica (em decorrência do controvertido “milagre” da beata Maria de Araújo – a hóstia transformada em sangue), não saía de sua residência. Era lá que recebia políticos oportunistas, legiões de romeiros, seus afilhados e “amiguinhos”, como costumava chamá-los.







As belas fotopinturas
de Telma Saraiva



As belíssimas fotos que estão acima foram feitas com recursos gráficos do Photoshop? Quem pensou assim, calculou errado. A técnica usada para colorir as fotos, hoje, está em desuso nos grandes centros urbanos: é a fotopintura. Técnica utilizada com pincéis e tintas para remodelar, embelezar feições, inventar imagens e que começou há muito tempo ( e coloca muito tempo nisso), antes do Photoshop. E quem ainda continua preservando a tradição é a artista cearense, residente no Crato, Telma Saraiva.
As fotos são da própria Telma, quando jovem. Lá nos anos 50, do século passado, quando começou a pintar fotos, ela fotografava-se, no espelho, usando adereços copiados das artistas de Hollywood. Telma contou, em entrevista à Singular, que se produzia com fitas de cetim e outros pedaços de fazenda, tudo feito na hora, e pregados com alfinete. Depois pintava as fotos.
Seus auto-retratos saíram dos álbuns de família para serem festejados e reconhecidos como obras de arte e passaram a constar no acervo da Mostra Retrato Popular. A exposição foi mostrada no Centro Dragão do Mar, na Pinacoteca do Estado de São Paulo e no Museu de Arte de Belém do Pará.


























11 de jun de 2009



No “escurinho” da praça


Pra namorar não existe hora, momento ou lugar.

Reparem esse casal, flagrado pelo fotógrafo Evilázio Bezerra, que em plena manhã de domingo, clicava, na praça do Ferreira, para compor numa crônica do poeta Jorge Pieiro, publicada, posteriormente na Singular.

Os dois “pombinhos” se recusaram a dar entrevista, pois estavam ali, anonimamente, segundo eles, e por algum motivo (ou por muitos), não queriam ser perturbados. Justa razão.

Namorar desse jeito, nos escaninhos do anonimato, mesmo em praça, como é o caso, guarda-se o seu doce.

Não importa o contraste da mentira do esconderijo diante dos olhos alheios. Não. Para os dois amantes, naquele momento, o instante era só deles.

O mundo lhes pertencia.

A Coluna da Hora, as flores, os pássaros, aquele sol que aparecia de mansinho, serviam só como um prelúdio, avistando, de longe, os murmúrios, os amassos, os beijos. No “escurinho” da praça: os amores.

Só mais romântico do que namorar assim, amando em segredo, talvez aconteça, no verso de Capiba, compositor pernambucano, na música Maria Betânia, e que diz assim:

“Sinto saudade do beijo que nunca te dei”.

Namora-se de qualquer jeito.

10 de jun de 2009



O Maurição é um cara de uma verve incomensurável, na gaiatice, no fino humor, na ironia, na sacanagem. Aquele sujeito, que numa mesa de bar, não para de glosar, ou melhor, de dizer putaria. Ele faz o lado gaiato da Singular impressa, com sua coluna "Umas & Outras".
E, agora, está por aqui.

Sexo animal
Este caso ocorreu, em Canindé, no início dos anos 80, do século passado. Naquela época, os bancários eram obrigados a usar gravata. Um deles tinha por hábito usar gravatas espalhafatosas, modelos únicos, capazes de identificá-lo à distância. Certa ocasião, após tomar umas e outras, nosso personagem, ao dirigir-se para “verter água”, deparou-se com uma jumenta que pastava num munturo, um beco, atrás do botequim que frequentava diariamente. Há mais de dois meses, sem namorada, fazendo justiça com as próprias mãos, não dispensou aquele belo exemplar do mundo animal. Ali mesmo, encostou no barranco e, sem dispensar juras de amor eterno, o bancário e a jumenta passaram boas meia horas, dedicando-se à mais intensa atividade sexual.
Satisfeitos, cada tomou o seu caminho.
Na tarde do dia seguinte, ao sair do trabalho, quem o bancário encontra? Aquela mesma que estivera em “seus braços”, esperava-o já com as ancas arribadas. Em volta do pescoço, a prova do amor: aquela mesma gravata de grandes bolas amarelas que ele a laçara, na noite anterior.

Vida sexual de um homem
PREOCUPAÇÃO X DESESPERO
· Dos12 aos 15 anos: preocupação é quando a vizinha gostosa que troca de roupa com a janela aberta avisa que vai mudar de casa; desespero é quando sua mãe vai jogar fora aquela coleção de Playboys, com as páginas pregadas.
· Dos 16 aos 25 anos: preocupação é quando aquela “ficante” diz que está com a menstruação atrasada; desespero é quando o filho é seu.
· Dos 26 aos 35: preocupação é quando sua namorada começa a comprar as coisas para o casamento; desespero é quando ela manda fazer os convites.
· Dos 36 aos 45: preocupação é quando você nota que a menina lhe olha o tempo todo numa festa; desespero é quando, ela chega perto e você vê que é sua sobrinha.
· Dos 46 aos 55: preocupação é quando sua mulher desconfia que você está tendo um caso; desespero é quando ela lhe tira o apartamento, o carro, a casa de praia e 50% do seu salário.
· Dos 56 aos 65: preocupação é quando você, pela primeira vez, não consegue dar a segunda; desespero é quando, pela segunda, não consegue nem dar a primeira.
· Dos 66 aos 75: preocupação é quando você precisa tomar dois Viagras de cada vez; desespero é quando você não consegue lembrar-se do que fazer com aquilo “bambo”.
· Depois dos 75: preocupação é quando seus amigos começam a morrer; desespero é quando você começa a se encontrar-se com eles.





Súplica cearense
Não é mais o sol inclemente que castiga o Ceará, muito menos se roga a Deus, pedindo pra chuva cair sem parar, como diz a música Súplica Cearense, de Gordurinha e Nelinho.
Não.
Neste ano, só dilúvio, flagelando milhares de desabrigados, trazendo doenças, miséria e fome.
O olhar sensível do fotógrafo Thiago Gaspar, muito mais do que um registro documental, compartilha com a dor e a tragédia. Só desespero e desencanto, no suplício cearense.

Thiago Gaspar dos Santos, 32 anos, nascido em Florianópólis, ingressou no fotojornalismo aos 21 anos. Em Fortaleza, começou no jornal O Povo e atualmente trabalha no Diário do Nordeste.
Prêmios conquistados: Nikon Internacional (2007), Embratel, Nordeste Segurança (2002 e 2003).

Os truques do Jornal Nacional

Entrevista com Nilton Hernandes - jornalista, mestre e doutor em Semiótica pela Universidade de São Paulo-
quase de quatro décadas (início-setembro de 1969), mais de 55 milhões de telespectadores brasileiros incorporam à vida familiar, logo depois da novela das sete, a audição de uma leitura rápida das manchetes em escalada na entonação vibrante dos apresentadores, seguida de sons, e de cortes rápidos de imagens. Detalhe: sempre com noticiais ruins. Está no ar o Jornal Nacional, da Rede Globo. Vocês sabiam caros internautas, que tudo isso faz parte de uma engenharia de truques para manipular a emoção do público? Conforme o raciocínio do jornalista e doutor em Semiótica da Universidade de São Paulo, Nilton Hernandes, esses minutos iniciais são os mais problemáticos do noticiário para se obter a adesão do telespectador, e por isso é usado o impacto afetivo.
Por que o senhor quando publicou o livro A Mídia e seus truques, afirmou que “falta ao estudo do noticiário de TV uma visão não só mais abrangente como também distanciada?” E concluiu: “No Brasil, uma das razões para tanta passionalidade – inclusive acadêmica – é o sucesso e o poder de mobilização e de desmobilização do telejornalismo e, notadamente, do Jornal Nacional”.
Não temos uma cultura, inclusive acadêmica, de análise do jornalismo, mas de mera crítica, principalmente devida a leituras superficiais e equivocadas de grandes teóricos marxistas, da Escola de Frankfurt, etc. O Jornal Nacional, por exemplo, é pouco analisado nesse sentido. Mas é campeão de crítica. O programa não passa, na maioria das vezes, de pretexto para uma série de estudiosos abordarem outros assuntos, principalmente de viés claramente ideológico. Não tenho nada contra isso. A Globo não é gerida por ingênuos, como mostram tantos exemplos, caso da emblemática manipulação do debate entre Lula x Collor que decidiu uma eleição a presidente do Brasil. O que me incomoda, porém, são certas críticas que empobrecem o debate sobre o jornalismo de TV. Por exemplo: JN é sempre acusado de ser um jornal superficial, dentro de uma mídia condenada a ser “burra”. Por que não discutir o que seria esse JN de interesse da sociedade que, ao mesmo tempo, mantivesse a audiência de mais e 35 milhões de telespectadores que tem todas as noites? Não acredito em mídias burras, nem em público ignorante. Mas não dá para começar uma discussão de uma TV de qualidade com esses pressupostos, ou melhor, preconceitos. Outro problema que vejo em certos teóricos: eles “fatiam” os jornais de acordo com os seus limites e intenções: uns só abordam questões de conteúdo, outros só de expressão. Tem gente que jura que tudo é “imagem”. E há outros que acham que o importante é só o verbal. Ninguém lê, vê ou ouve um jornal de qualquer mídia aos pedaços. Qualquer veículo precisa ser analisado de um ponto de vista mais integral.

Presente na vida de qualquer cidadão, é inegável o poder da televisão. Como o senhor explica a manipulação da emoção do público pelo Jornal Nacional? Quais os truques que diferenciam o JN dos demais telejornais e por que há tanto tempo é campeão de audiência?
Essa questão é bastante complexa e é analisada no meu livro A mídia e seus truques. Vou apontar apenas alguns aspectos mais superficiais. No JN, há uma profusão de estímulos, como constante mudança de vozes, de cenas, de repórteres e de apresentadores para captar e manter a atenção – bastante frágil – do telespectador. O verbal, principalmente a fala, assume um papel estratégico. Um noticiário de televisão, como o Jornal Nacional, tem a possibilidade de fazer uma narrativa visual, mas prefere construir inicialmente uma lógica “verbal” na qual são intercalados trechos de vídeos. O telespectador ouve, vê e “comprova” a existência de personagens e lugares citados. Tente só ouvir o JN no rádio. É possível perceber que o programa é perfeitamente compreensível. Há um ritmo muito acelerado, não dá tempo de refletir sobre o que é dito e mostrado. O JN também “espalha” os assuntos, muito mais preocupado em criar esse ritmo do que em organizar rigidamente o material, como no caso dos impressos, que dividem tudo em editorias. Isso quer dizer que notícias longas devem ser colocadas junto de outras curtas. Momentos de aceleração são compensados por outros, de desaceleração. Pode-se começar com um assunto de saúde em um dia, de segurança pública no outro e de política no seguinte. Como outros jornais de outras mídias, o JN, porém, sempre começa muito tenso, com notícias de impacto negativo sobre a vida dos telespectadores, e vai, aos poucos, apresentando assuntos mais leves. Chamo isso de estrutura happy end. Não sem razão, o apelido na Globo da última notícia, que fecha o JN, é “boa noite”.



8 de jun de 2009


Além de ter alcançado sucesso nacional, o cantor e compositor cearense Raimundo Fagner sempre esteve envolvido em confusões, por conta de acusações sobre plágio. Em 1999, pela primeira vez na imprensa cearense, foi publicada, na Singular, uma matéria, detalhando os imbróglios do artista. Vejam o texto:


Manera Frufru Manera
O clássico dos plágios

Luciano Almeida Filho, crítico de música do Jornal O Povo


O cearense Raimundo Fagner pode entrar para a história recente da Música Brasileira com o disco que mais recebeu acusações de plágio, comprovadas e até assumidas, posteriormente.
O trabalho em questão, é justamente o seu primeiro LP, Manera frufru manera, de 1973. Muito criticado, quando do seu lançamento, é hoje, considerado um disco fundamental, daquele tipo discoteca básica, para entender a Música Popular Brasileira feita durante a década de 70. Há quem inclusive o considere, peça fundamental da chamada “invasão nordestina”.
Bem...É desse disco a belíssima Canteiros, ponto alto do seu repertório até os dias de hoje, mas que a família continua impedindo novas gravações, principalmente depois de Fagner ter mexido mais uma vez com a obra da poetisa para fazer Motivo, incluída no seu disco de 1979 – também impedido de ser lançada.
O próprio Fagner, pensando que a poeira havia baixado, tentou regravá-la para o seu CD Amigos & Canções, lançado ano passado para justamente comemorar os 25 anos de carreira discográfica. Mesmo pretendendo dar todos os créditos e pagar os direitos autorais, os descendentes são taxativos a não quererem conversa.
Outro ponto alto do CD é Sina, creditada à parceria de Fagner e Ricardo Bezerra. Lá no sertão do Cariri, o poeta Patativa do Assaré levantou a voz e provou que a poesia era de sua autoria.
Fagner tirou o seu da reta e apontou Ricardo com sendo responsável, já que, segundo ele, a letra teria sido passada pelo seu parceiro. Até então conhecido como autor da saga sertaneja, imortalizada por Luiz Gonzaga, A Triste Partida, Fagner se redimiu com Patativa ao produzir seus primeiros registros fonográficos pela então gravadora CBS, logo depois de o poeta ter participado do projeto coletivo Massafeira Livre (l980).
Como se não bastasse, agora Penas do Tiê, outro ponto alto do LP de estreia do cearense, num belíssimo dueto com Nara Leão, foi acusado de ser a música Você, de Hekel Tavares e Nair Mesquita, devidamente maquiada.
Naquele disco e nas regravações posteriores – inclusive o já citado Amigos & Canções, em novo dueto com Nana Caymmi -, a música é creditada como adaptação do folclore, usando o velho recurso do “Domínio Público”, típica de obras cujos os autores se perderam no tempo. Você foi registrada originalmente, em 1928, por uma cantora lírica da época. Agora, o filho do compositor, Alberto Hekel Tavares, reivindica uma indenização de R$ 400 mil. Fagner considerou a quantia muito alta. Mas, afinal são 26 anos de abuso.
(*) Depois de muitas ações judiciais, durante anos, envolvendo Fagner e as famílias de Hekel Tavares e de Cecília Meireles, finalmente as pendências econômicas foram resolvidas. Canteiros, por exemplo, fez parte do DVD que o artista gravou, no ano passado, comemorativo dos 35 anos de carreira.

Wilson Simonal:

Dedo-duro ou vítima da esquerda?

A turbulência política, social e artística, no Brasil, na segunda metade dos anos 60 e no inicio da década de 70, do século passado, está de volta ao noticiário com o lançamento do filme Ninguém sabe o duro que dei (dirigido por Cláudio Manoel Micael Langer e Calvito Leal, que focaliza o sucesso e a tragédia na vida de um dos maiores cantores da época: Wilson Simonal (1935/2.000).

O mundo começou a desabar para Simonal por conta de um episódio controvertido, em1971. O artista desconfiado de que o seu contador, Rafael Viviani, estava lhe roubando (ele ganhava muito dinheiro e fizera um contrato de patrocínio com a Shell - o maior do Brasil, naquela época), chamou policiais civis do Dops (Departamento de Ordem Política e Social – órgão repressor da ditadura militar - 1964/1985), para aplicarem uma surra no suposto ladrão. Denunciado à polícia pela vítima, o próprio Simonal foi detido por 12 dias e apontado como “informante do Dops”.

Foi o bastante para que alas da ideologia de esquerda contrária a ditadura militar, implantada no País, a partir de 1964, encravadas no meio jornalístico e no artístico, começasse o desmonte de uma carreira, consagrada, até então, na música popular brasileira. Ao praticar o desastrado sequestro, e apontado como “informante do Dops, Simonal morria duas vezes, a primeira, artística, e a segunda quando faleceu anos depois. Passou a ser considerado um dedo-duro no meio artístico, a serviço da ditadura.

O Pasquim, o mais influente jornal de oposição à ditadura, não dava tréguas a Simonal, comandando uma campanha destruidora contra o cantor. O personagem Caboclo Mamadô, do cartunista Henfil, sepultava artistas ligados, direta ou indiretamente, ao regime, e a caricatura de Simonal sempre aparecia com o S do seu nome com o sinal de cifrão. Em outro cartoon, era desenhada a mão de um homem com o indicador, negro, esticado e com o texto: “Como todos sabem, o dedo de Simonal é mais famoso do que sua voz. A propósito: Simonal foi o cantor brasileiro que fez muito sucesso no país ali pelo final da década de 60”.

Cantores famosos ligavam para casas de shows, condicionando apresentações a não contratação de Simonal. Diretores de programas de televisão deixaram de convidá-lo. Um massacre. Um exilado dentro do seu próprio país, e o pior, impedido de trabalhar. A carreira gloriosa acabava ali. Virou alcoólatra, e até é morrer, traumatizado, o artista, perseguido, ficou 37 anos no ostracismo, sem cantar, vender disco. Todas as portas fechadas.

Por que tanto ódio e inveja? Por que tanta carga de preconceito tão arrasador por parte esquerda? Só por que ele era negro, rico, fazia sucesso estrondoso, e não tinha discurso político (aliás ele era oco de qualquer ideologia) afinado por aqueles opositores da regime vigente? Ou porque não era do time dos tropicalistas, e não cantava música de protesto?

Nunca foi provado que ele denunciava colegas de profissão. Em 2003, a pedido da família, a Secretaria Nacional de Direitos Humanos informou que não existia nenhuma prova de que Simonal tivesse servido à ditadura. Até a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) o reabilitou simbolicamente.

Com seu carisma, swing, ele sacudia multidões (certa vez ele cantou, no Maracanãzinho para uma platéia de 30 mil pessoas, quando naquele tempo os cantores só lotavam boates e teatros). Só perdia em popularidade para Roberto Carlos, no auge da Jovem Guarda.

Seus ferrenhos detratores de esquerda, o acusavam, também, de “vendido” às multinacionais, por conta de um contrato milionário que fez com a Shell, para posar como garoto-propaganda e ajudar a popularizar o Mug, um boneco que ganhou fama de ser o talismã, nos anos 60. Ora, ora,


Chico Buarque também foi contratado pela Sheel para aparecer em capas de revista abraçado com o Mug. Ninguém abriu o bico para criticá-lo.
Simonal, e outros cantores da época, como Roberto Carlos, eram marginalizados pela “intelectualidade nacional” por não fazer parte da MPB. Pois, suas composições e de outros intérpretes populares não eram criadas se sustentando em metáforas, imagens truncadas e herméticas. Pois tal artifício de linguagem era utilizado por compositores engajados contra a ditadura, para driblar a censura, a partir de 1968 com o decreto do famigerado Ai-5 (13 de dezembro). A praia dele era outra, o gênero da pilantragem, como costumava dizer.
A “MPB, como afirma Paulo César de Araújo, em seu livro Eu não sou cachorro, não, "mais do que um gênero transformou-se, a partir do fim dos anos 60, numa verdadeira instituição, dotada de reconhecimento cultural e de lugar social bem determinado. Apesar do aparente significado, a sigla MPB não representa toda e qualquer música popular produzida no Brasil. Ainda hoje, e de uma maneira muita mais intensa no período do regime militar, ela é a expressão de uma vertente da nossa música popular urbana, produzida e consumida majoritariamente por uma faixa social de elite, segmento que a indústria cultural classifica como público A e B”.
Simonal era, na essência um cantor de música popular.
Era assim, uma espécie de Garrincha da música: a alegria do povo.


7 de jun de 2009



Olha aí, a capa da Singular em Braille

Gente, nunca, nunquinha, eu tinha passado, na minha vida profissional, momento tão emocionante, como o que passei, ontem, sábado: receber das mãos da Andréia, bibliotecária da Sociedade de Assistência aos Cegos, o primeiro exemplar da Singular em Braille. E diagramado pelo pessoal que trabalha na gráfica da SAC. Eu saber que, de agora em diante, as reportagens da revista serão lidas, também, pelos cegos. O sonho se transformou em objeto, naquelas páginas cheias de sinais em alto relevo, decodificando para as pessoas com deficiência visual, o conteúdo da Singular.
Sei que a revista é a primeira, no Ceará, a ter uma versão em Braille. Isso, orgulha, não nego. Mas, não é só isso que enche a minh’alma de felicidade, não. Começa com o carinho com que todos que fazem o antigo Instituto dos Cegos, a partir da Dra. Josélia Almeida, diretora geral, abraçaram o projeto.
É tudo.





Pássaro grande
André Dusek*

Esta capa da Singular foi publicada em junho de 2005. O que aconteceu foi o seguinte: liguei para o fotógrafo André Dusek, pois eu sabia que ele tinha um texto sobre os primeiros momentos depois da morte de Che Guevara. Ele, gentilmente, mandou-me o texto com foto e tudo...


"Ele não queria acreditar, mas estava ali, ao lado de Che Guevara morto. Fotografou o que podia, consumiu vários rolos de filme. Entre uma chapa e outra, pegou na mão de Che e constatou que estava quente. De um furo no seu peito ainda brotava sangue. Che havia sido executado há pouco tempo. Há dias sem dormir e ainda um pouco bêbado, o fotógrafo Antonio Benedito de Moura continuava sem acreditar no que via e fotografava. Para ter uma prova que fosse além das fotos que fazia, pegou um pedaço de filme virgem e tentou tirar as impressões digitais do guerrilheiro, mas foi impedido por um militar boliviano. O mais incrível é que um grande porre e muita sorte ajudaram o repórter fotográfico Antonio de Moura, do Diário da Noite e o cinegrafista Walter Gianello da TV Tupi, ambos dos Diários Associados, a produzir este importante furo internacional na década de 60. Eles foram os primeiros a fotografar e filmar Che Guevara, morto na Bolívia.

Esta história começou dias antes em um bar chamado São Benedito, na cidade boliviana de Santa Cruz de La Sierra, que o fotógrafo e o cinegrafista brasileiros adotaram como casa e que carinhosamente chamaram de “sucursal”. Era outubro de 1967, eles aguardavam por vários dias o retorno da repórter Helle Alves. Esta tinha ido a La Paz tentar conseguir vistos para seguirem para Camiri, onde acontecia o julgamento do jornalista francês Regis Debray, acusado de participar da guerrilha naquele país. Como não havia o que fazer, Moura e Gianello iam matar o tédio no boteco São Benedito. Dia após dia, os dois tomavam “todas” (cerveja e pinga). Havia na cidade um boato de que um tal “pássaro grande” estava para ser pego. Lá pelo dia 4 de outubro, o dono do bar os chamou num canto e avisou: três “caras” do serviço de informação do Exército boliviano e informantes da CIA chegariam no bar para tentar arrancar alguma informação dos jornalistas brasileiros. Até hoje, Moura não sabe o que queriam arrancar deles, mas, pelo sim e pelo não, resolveram “pegar leve” na bebida a partir daquele momento. Os informantes bolivianos chegaram oferecendo cerveja, porém os dois brasileiros foram logo dizendo: “vamos fazer como é costume no Brasil, vamos “quebrar o gelo” e tomar do jeito brasileiro, ou seja, tomando cachaça com cerveja. Enquanto Moura e o Gianello tomavam uma, os bolivianos tomavam três. De madrugada os brasileiros saíram de lá carregando os três bolivianos com a informação de que o “pássaro grande” que estava por perto era Che Guevara e que estava cercado nas proximidades de La Higuera. Helle, que já havia voltado, Moura e Gianello tomaram um jipe e pagaram a estrada.

Encontraram militares pelo caminho e várias barreiras. Para ganhar a confiança, Moura fotografou a movimentação dos boina-verde. Ele, Gianello e Helle se alistaram como colaboradores voluntários do exército boliviano que não se responsabilizaria pela segurança dos jornalistas. Estes só poderiam acompanhar as tropas até Valle Grande.

Eles conheceram um tenente, que havia estudado na Academia Militar de Agulhas Negras e falava bem português. O militar lhes contou que Che já estava preso. No dia seis de outubro, Moura fotografou a chegada dos cadáveres de dois guerrilheiros identificados como Tânia e Perêdo. No dia oito, chegou a informação de que Guevara já estava morto. Para não correr riscos, Moura entregou a sua Rolleiflex ao tenente para que fizesse as fotos caso ele não tivesse acesso ao local onde estava o corpo, ficando só com a câmera 35 mm.

Às três horas da tarde, do dia 9, chega em Valle Grande um helicóptero com dois corpos amarrados em macas no trem de pouso do lado de fora. Um deles era Che Guevara. Sua maca foi carregada até uma lavanderia e colocada em cima de uma pia com balcão. Não foi difícil chegar perto, mas teve que “molhar a mão” de alguns militares com pesos bolivianos. Moura nem esperou a autorização e tirou várias fotos de Che morto, mostrando detalhes do corpo. Na hora, o seu flash não funcionou e as fotos foram feitas com luz natural, com baixa velocidade de exposição, pois na lavanderia estava escuro, o que deu um tom dramático às imagens. “Para você ter uma idéia de como o Che chegou, parecia vivo ainda, estava quente e apertando a mão na haste da maca. Ele foi executado mesmo”, relata Moura. Lá contavam que Che, quando foi encontrado, tomou um tiro na coxa e caiu no chão. Depois foi amarrado numa árvore para ser executado. Che tinha vários problemas de saúde.

Além de asmático, ele usava botas ortopédicas. Como não tinha mais botas, ele estava usando uma metade de bola de futebol amarrada em cada pé. Ele também estava sujo de terra. As fotos de Moura mostram o Che com a mão agarrada na haste da maca, com as metades de bolas de futebol nos pés, o corpo sujo de terra e vestindo uma jaqueta com capuz. A foto feita pelo fotógrafo Freddy Alborta, que depois circulou no mundo, mostra um Che Guevara morto, com o corpo limpo, sem camisa, com vários militares em volta apontando o furo da bala e com os pés descalços. Essa foto foi feita com certeza horas depois das tiradas por Moura. O corpo de Che ficou exposto para visitação do povo de Valle Grande durante a noite, mas, no dia seguinte, sumiu. Suas mãos foram amputadas para efeito de identificação, e tempos depois foram enviadas para sua família na Argentina. Seus restos mortais só foram encontrados em 1997 e enviados a Cuba, onde foi feito funeral com 30 anos de atraso. A imprensa internacional estava toda em Camiri, no julgamento de Debray e quando souberam, correram para Valle Grande, mas era tarde demais. Naquele tempo não era fácil se deslocar pela Bolívia.

Em sentido contrário voltando na estrada, Moura, Gianello e Helle correram para Santa Cruz. Por sorte, naquele dia saiu um vôo para São Paulo. Helle embarcou sozinha com todos os filmes de Moura. “Parem as máquinas!” O Diário da Noite publicou com exclusividade as primeiras fotos de Che Guevara morto. A equipe dos Diários Associados “furou” até os bolivianos. Depois essas fotos foram vendidas para o mundo todo e Assis Chateaubriand ganhou dinheiro e prestígio.


Moura, ao voltar ao Brasil ganhou muitos elogios. Moura, hoje, está aposentado. Ele completou 66 anos em junho deste ano. As imagens de Che, morto na Bolívia feitas pelo cinegrafista Walter Gianello se perderam num incêndio na TV Tupi. Felizmente, as fotos estão salvas: Antonio Moura guarda seus negativos até hoje.

Isso é História, com H maiúsculo e deve ser preservada para sempre.


*André Dusek é repórter-fotográfico da revista IstoÉ
Intelectuais falam sobre a Singular

O Clube do Bode reúne todos os sábados, a partir do meio-dia, escritores, jornalistas, poetas, músicos, artistas e demais interessados em papear sobre tudo. A congregação existe há anos e funciona na calçada da Livraria Livro Técnico. Ontem, estivemos lançando o número 27 da Singular, no Flórida Bar, localizado ao lado do citado Clube do Bode. E aproveitei o momento para ouvir alguns depoimentos do maestro Gladson Carvalho, do escritor Juarez Leitão e dos poetas e artistas plásticos Alano de Freitas e Audifax Rios. (Davy Nascimento).

Gladson, que se gaba de ter desde a primeira até a mais recente Singular, festeja esse lançamento, mas cobra mais apoio dos órgãos governamentais. “Olha, ela deveria ser mais valorizada e vendida em escolas e universidades, pois trata de cultura popular e assuntos polêmicos também”. Ele ainda enfatiza a peculiaridade do nome e do tamanho da revista. “Você pode levar ali dentro do seu bolso textos bem trabalhados que prezam pela essência da nossa cearensidade”.

Juarez parabeniza o “olhar dinâmico e crítico da revista, que contribui para a História e para a Literatura”. Na opinião dele, as revistas no Ceará nascem com muito entusiasmo, mas muitas não chegam sequer ao terceiro número. “Acho um heroísmo fazer uma revista dessa, que consegue ser prática, palatável e interessante. A revista ressuscita a História não oficial do Ceará, o que é muito importante”.

“Como artista, a Singular é perfeita, gostosa de ler”. Foi assim que o Audifax iniciou o papo, regozijado pelo fato de que, a partir dessa edição, a revista será prensada na linguagem Braille e acessível na biblioteca do Instituto dos Cegos em Fortaleza. “As pessoas privadas da visão também têm direitos, inclusive a esta revista. Que isso sirva de exemplo para outros veículos de comunicação”, ressalta.

Para finalizar, Alano, que já deu uma entrevista numa edição passada da Singular, pediu para o seu depoimento ser disponibilizado na íntegra. Então, aí vai:

“Tenho o prazer de, quase sempre, receber as edições da Singular das mãos do próprio Eliézer, o editor. Publicação cultural resistir por dez anos, aqui no Ceará, é pioneirismo louvável. De três ou quatro anos na praça, noto sensível melhoria em sua qualidade, quando passou a entrevistar figuras literárias, políticas e artísticas, que já são parte grata da nossa história. Parabéns plurais.”