Mário Gomes – O último poeta da Fortaleza Descalça
O poeta Mário Gomes, em suas andanças pelo coração de Fortaleza, leva consigo (embora cruel hoje em dia, por conta de sua saúde muito debilitada) a imagem da Fortaleza descalça como escreveu o poeta Otacílio de Azevedo (pai dos escritores Sânzio e Jandira, do astrônomo Rubens e do pesquisador Nirez). Mário, personagempopular daquela Fortaleza chistosa, genuinamente humana, à época em passantes tinham tempo para se deleitarem, ouvindo os poetas da Praça do Ferreira. Ou acompanhar, glosando e se divertindo com tipos esquisitos e curiosos, como a “Burra Preta”, Zé Tatá e tantos outros. Esses personagens da Fortaleza descalça já se foram. Só ficou Mário Gomes, vagando, alquebrado, em ziguezague.Ele, o último retalho da Fortaleza descalça e humana.Escrevi o texto acima para apresentar-lhes uma crônica comovente e sincera,“Para o Aniversário de Fortaleza”que recebi, via e-mail, escrita por Raymundo Netto:...................................................................
Comendo lagartas e defecando borboletasTumulto na rua. camburão da polícia chegava em frente ao Palacete Ceará à praça do Ferreira. Assalto? sequestro? Não, prenderam “O” poeta. Quem? Ora, quem... o Mário Gomes, sabe, não? Era isso mesmo. Mário Gomes, aquele queconseguiu se estabelecer como poeta, mesmo por quem não conhece ou lembra umúnico verso seu — ao contrário de outros que lançamlivros e livros, recebem títulos e medalhas, cobertura da alta imprensa e ninguém admite a honraria —,o tipo popular-mor da nossa blond cidade estava sendo preso. Motivo? Baixara as calças para alguém que caçoara deseus trejeitos, de suas vestes, de sua existência. Ele reagiu, a polícia chegou para pôr ordem e recolheu o “poeta das sarjetas” no pára-choque do camburão. Uma multidão de populares o acompanhou. Alguém se dirigiu ao oficial e, como se existisse tal licença(imunidade?) poética, perguntou: “Ele é o Mário Gomes, o poeta, o senhor não o conhece?” Uma senhora chora, outra resmunga: “Deviam prender é bandido!” O povo se revolta, discute, os policiais pareciamnervosos.O Mário, coitado, vestido como um Judas em Sábado de Aleluia, bodejava alguma coisa incompreensível, sei lá oquê, balançava as mãos e fazia caretas tal qual ummenino malino, “um enigma das letras, um amante das estrelas”. A barba malfeita perseguia os cabelos ralos, o nariz torto separavaindiferentes olhos verdes a balançar os inchados tornozelos. Aproximei-me e perguntei o que acontecera. “Eu só queria lançar o meu livro (refere-se à biografia) de novo”, retirou do bolso Mário Gomes: poeta, santo e bandido do Márcio Catunda, abriu e leu: — O meu legado, deixo ao querido povo cearense!— daí, treme, lacrimejam os olhos, não gosta que o vejam assim,dá-me as costas, passa um lenço na vista, volta-se quase queesfregando o livro nas minhas ventas e repete: — O meu legado deixo à porra do povo cearense! — assisto à indignação, melancólico. Compreendo perfeitamente.— Pagamento de poeta, Raymundo, é tapa e pontapés! Só isso, fazer poesia aqui é isso... Um rapaz ao lado me disse que ele comprara quase todos os exemplares de Sábado: estação de viver do Juarez Leitão apenas para mostrar a sua foto aos passantes da praça e provar a todos que ele não era qualquer um, não.Tupy, um cachorro velho, chegou apreensivo. Mário sorriu: — Dentre amigos, encontrei cachorros; dentre cachorros, encontrei amigos. Desculpe, amiguinho, aderi àFome Zero, tenho nada. — lamentou, retirando dos bolsos do paletó pedaços de guardanapos, retalhos de versos. Recordei que há poucassemanas havia encontrado o poeta na praça. Estava mais mungangoso que o normal. Paguei-lhe um pacote de biscoitos. Perguntou-me se eu tinha mesmo 40 anos, pois lera o meu livro — em certa ocasião o presenteei com um exemplar — e estava certo de que, apesar daaparência, eu tinha pelo menos uns 80.— Raymundo, você escreveu um livro muito bom...é um grande literato que fala das calçadas velhas... das calças das velhas... Ah, as calças das velhas estão cheias de moscas! — riu. — “Cadeiras na calçada”, Mário.Deixe de invenção! — Já tem uns 15 anos que a gente não se vê,não é? — Que é isso, Mário, a gente se viu no ano passado, aniversário da Padaria Espiritual, aqui mesmo na praça, lembra?— Padaria Espiritual? Padaria Espiritual? Não, acho que não... Eu nunca fiz parte da Padaria, eu sou do Clube dos Poetas Cearenses. Perguntei pela “Turma do Escritório” e ele lamentou o abandono de alguns: — Tem um poetinha de araque, um retardado, que vez ou outra vem falar comigo. Diz que é meu discípulo. O carinha quer ser eu, sem ter a coragem de ser eu. Queria ver se ele aguentava viver na minha pele um dia. Aguenta não, é frouxo! Aguentar as pauladas que eu aguento,só sendo Mário Gomes. “Subi num pé de cana pra colher uvas. Chegou o homem das laranjas e disse, solta as goiabas, rapaz!”Súbito, sua face se transformou, correu e jogou o pacote de biscoitos num moleque que lascara uma salva de palavróriosinapropriados:— Se manque, eu sou Mário Gomes, você é um otário! — voltando, anunciou:— Depois eu morro, viro nome de praça ou de rua e o povo vai falar de mim, semlembrar que eu vivia assim, que nem as calçadas velhas doseu livro... Despertei da lembrança quando o policial disse para não se preocupar. Iriam soltá-lo na esquina do próximoquarteirão. Olhei para ele. Apesar do estado debilitado, aindadiscursa com o vigor de um anarquista. O povo cearense, naquele momento, o reconhecia e sabia que muitos denós passaremos, mas ele deverá ser lembrado por maiscinqüenta ou cem anos. Mesmo ali, com toda desenvoltura,gritava em seu “trono” improvisado: "A maioria esmagadorada cidade me conhece... sabe quem é Mario Gomes! (...) muitos dos que se dizem artistas, antes me procuravam e hoje fingemque não me vêem... A verdade da vida é compreender a loucura do outro!"Olhei mais de perto e percebi que havia outros presos no camburão: Tostão, Chagas dos Carneiros, Casaca de Urubu, José Levi, Tertuliano, Canoa Doida, Pilombeta, De Rancho, Manezinho do Bispo, Burra Preta e tantos outros. Então, tive a certeza de que o Mário não tinha sido preso, e sim, escolhido para viver a imortalidade que só os doidos alcançam.O relógio da Coluna da Hora gemeu a breve passagem de seu tempo. 283 anos de Fortaleza e eles ainda estão no meio de nós...Mário Ferreira Gomes nasceu em Fortaleza em julho de 1947. Antes de assumir-se poeta e boêmio convicto, foi professor do antigo curso de Admissão ao Ginásio, naescola Albaniza Sarasate. Iniciou, sem concluir, o curso de Arte Dramática na Universidade Federal do Ceará. No final da década de 1960 fez parte do Clube dos PoetasCearenses, agremiação dirigida pelo Carneiro Portela que se reunia na Casa de Juvenal Galeno.Foi internado diversas vezes e conta suas mirabolantes fugas dos tratamentos comchoque elétrico. Tem diversos livros publicados, dentre eles:Lamentos do Ego, Emoção Poética, Terno de Poesia(com Alcides Pinto e Márcio Catunda) e Uma Violenta Orgia Universal (antologia poética).. .....................................................................................................
Meu ouvido não é penico 
Quando o Maurição mandou-me o “singelo poema
Na porta do cu do dono para ser inserido na sua
coluna Umas & Outras, gargalhei a cântaros.
E realmente, quando a revista saiu, muitos leitores ou
se identificavam com o personagem (rs) ou gostaram
do tal poema. O certo é que fez o maior sucesso.
E também reclamações e xingamentos. Várias pessoas
ligaram para a redação da Singular, no caso o meu
apartamento, esculhambando com recados desaforados.
Algo assim: “Como é que o editor de uma revista,
conhecida como cultural, publica tal coisa obscena”.
Outros metiam a mão na massa: “Revistinha de merda”
...E eu, só para frescar, valorizando o diálogo,
respondia, ao telefone:
“Gente, poesia sobre cu, também é cultura”.
Segue:
NA PORTA DO CU DO DONO
(De Maciel Melo e Zé Marcolino)
Essa rôla antigamente
Vivia caçando briga
Furando pé de barriga
Doidinha pra fazer gente
Mas hoje tá diferente
No mais profundo abandono
Dormindo em eterno sono
Não quer mais saber de nada
Com a cabeça encostada
Na porta do cu do dono
Já fez muita estripulia
Firme que só bambu
Mais parecia um tatu
Fuçava depois cuspia
Reinava na putaria
O priquito era seu trono
Trepava sem sentir sono
E sem precisar de escada
Mas hoje vive enfadada
Na porta do cu do dono
Nunca mais desvirginou
Uma mata vaginosa
Há muito tempo não goza
A noite de gala passou
Vive cheia de pudor
Sonolenta e sem abono
Faz da ceroula um quimono
E da cueca uma estufa
Vive hoje a cheirar bufa
Na porta do cu do dono.