15 de ago de 2009




O caso do santo sem cabeça
Arievaldo Viana*
João Batista Azevedo dos Santos, conhecido popularmente como Jota Batista, é um dos novos poetas canindeenses de reconhecido talento e de inspirada verve humorística. São de sua autoria dois folhetos bastante curiosos relatando dois fatos distintos relacionados com São Francisco de Canindé. O primeiro refere-se à construção de uma estátua gigantesca de São Francisco, em Canindé e o outro, intitulado A Verdadeira História da Viagem de São Francisco ao Piauí, mexe com o fanatismo religiosos de muitos canindeenses que acreditam que a cidade irá se acabar, caso a estátua milagrosa de São Francisco seja retirada do altar-mor da Basílica.
O primeiro folheto refere-se a um monumento projetado em Canindé, do qual foi concluído apenas a cabeça, ao passo que na vizinha cidade de Caridade-CE, tentava-se construir uma estátua de Santo Antonio, da qual apenas o corpo ficou erguido no topo de um serrote. Deixemos falar o poeta Celso Góes Almeida, que assim se manifestou na apresentação do folheto O Santo do Ano 2001 – São Frantônio, deste inspirado cordelista: “Jota Batista tem revelado, através de seus trabalhos poéticos um infinito senso de humor e irreverência (...) Neste cordel , deixa a marca indelével de seu humor apurado, na composição de versos de dez linhas, onde narra as dificuldades encontradas pelos nossos escultores para a conclusão das estátuas de Santo Antonio e São Francisco (Canindé)”.
Assim começa o irreverente folheto:
“Na vizinha Caridade
Planejaram um monumento
Que ia ser o sustento
Do turismo da cidade
E havendo necessidade
De realizar o sonho
Neste verso aqui exponho:
Depois de tanto bulir
Resolveram construir
A estátua de Santo Antonio.

Que o leitor me acredite
No que agora vou falar
Espero que não se irrite
Também não quero aumentar
A água sumiu na baixa
Sumiu dinheiro no caixa
Sumiu de tudo, seu moço,
Depois da pouca colheita
A estátua só foi feita
Do pé até o pescoço”.


O monumento, projetado em Caridade, (que ficou apenas no corpo) teria dimensões gigantescas, devendo equiparar-se ao Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, e à estátua do Padre Cícero, em Juazeiro do Norte. Canindé, centro de uma das maiores romarias do País, não poderia ficar atrás, por isso resolveu partir para construção de um monumento de proporções similares:

“Seguindo este traçado
E movido pela fé
Houve outro plano bolado
Em nosso bom Canindé.
A idéia é do prefeito
Que assim que foi eleito
Se mostrou bastante arisco
Mal ele saiu do ovo
Já foi prometendo ao povo
A estátua de São Francisco”.

O problema é que a parca verba liberada só deu para concluir a cabeça da citada escultura, vindo daí a justa reclamação do poeta:

“Só não quero que ele esqueça
De fazer o tronco e membro
Se ele esquecer eu me lembro
Nem que ele se aborreça...
Se a estátua ficar de pé
Vem gente pra Canindé
Do campo e da Capital,
Se o restante não for feito
Eu tenho dentro do peito
Uma idéia genial”.

A idéia “genial” engendrada por Jota Batista é colocar a estátua na divisa entre os dois municípios. Caridade entraria com o corpo inacabado de Santo Antonio e Canindé com a cabeça de São Francisco. Vejam só o nome escolhido para o novo “padroeiro”.

“Tenho outra idéia melhor
A pagode não me tome
Pra coisa ficar menor
A gente junta os dois nomes
Sacoleja na cumbuca
Balança o corpo e a cuca
Eu to com um medo medonho,
A seca ta nos matando
E o povo está apelando:
- Valei-nos, ó São Frantônio!
O poeta, sem perder o senso de humor, prevê logo uma briga entre as duas cidades, desejosas de saber para que lado ficaria a frente do monumento. Mais uma vez, Jota Batista comparece com outra de suas idéias:

“E para diminuir
O sofrimento do povo
Eu já tenho um plano novo
Esse é bom se discutir
Usando a imaginação
A gente agrada ao povão
E termina com a história,
Acredito que o Bibi
Não se nega a construir
Uma estátua giratória”.

Depois de desculpar-se com os escultores Bibi e Franzé de Aurora, autores das duas obras, Jota Batista resolve penitenciar-se também a Deus e aos dois santos vítimas da brincadeira:

“Minha mente eu não alugo
Peço aqui perdão a Deus
Aos dois santos não expurgo
Isso é apenas versos meus
Não levem a sério o artista
Inda mais Jota Batista
Por causa deste rabisco
De toda fé que disponho
Dou vivas a Santo Antônio
E palmas pra São Francisco”.

Embora não tenha sido muito rigoroso no esquema das rimas, há de se convir que o relato de Jota Batista está calcado no mais fino humorismo, lembrando em certos momentos a verve prodigiosa de José Pacheco e Leandro Gomes de Barros. O caso virou matéria na imprensa brasileira e saiu até no Jornal Nacional, alvo de reportagem do jornalista Marcelo Canelas.

*Arievaldo Viana é cordelista e publicitário
(Publicado na edição número 7 da Singular , de março de 2002)

14 de ago de 2009



Passando o tempo, tentando entender o Moisés, no Topa
Tudo por Dinheiro.

Frei Tito


Suicídio ou assassinato?



O calvário de Frei Tito de Alencar Lima ainda não terminou. Após 26 anos (Singular-edição de setembro/2.000) de sua morte ( 10 de agosto de 1974) dependurado numa corda em Villefranche-sur-Saône, pequeno lugarejo francês, uma terrível dúvida ainda persegue seus familiares. Os parentes não aceitam a versão de suicídio. “Tito foi assassinado”.


Pela primeira vez, sua irmã Nildes de Alencar Lima dá entrevista, emocionada, sobre as circunstâncias do falecimento do religioso cearense aos 29 anos de idade. Torturado no Brasil, até os limites de um ser humano, acusado de subversão (ele foi preso em novembro de 1969, em São Paulo, com outros dominicanos, acusados de colaborar com o líder comunista Carlos Marighella). O dominicano viveu seus últimos dias na França, como exilado político, traumatizado, dominado por alucinações projetando seus algozes dentro de sua mente doentia, perseguindo-o até a morte. Neste depoimento exclusivo à Singular, Nildes busca no passado explicações para várias interrogações sobre o que na verdade aconteceu. Ela esteve com Frei Tito, no Natal de 1973. No encontro com o irmão, poucos meses antes da morte deste, Nildes soube de várias informações nebulosas sobre pessoas que o perseguiam. Hoje, 26 anos depois, ela tenta reconstituir e compreender o desfecho trágico da vida do religioso, vejam seu depoimento:
A VIDA COMO DOAÇÃO

"O comportamento de Tito nunca foi enquadrado, por estudos psiquiátricos, como doentio e de que ele tivesse tendência para a autodestruição. Primeiro, porque meu irmão era uma pessoa profundamente religiosa e a vida era pra ele, um dom de Deus. E pela à sua formação religiosa, só a Deus é permitido tirar a vida. E mais: ele concebia o sentido da vida como doação ao outro. Basta relembrar as suas atitudes em prisões brasileiras antes de seguir para o exílio (em dezembro de 1970 o nome de Frei Tito figurava na lista dos presos políticos que deveriam ser soltos em troca da vida do embaixador suíço Giovanni Eurico Bücher, sequestrado pela Vanguarda Popular Revolucionária). Um fato ocorrido na Penitenciária Tiradentes, em São Paulo (Frei Tito cortou as artérias no braço esquerdo), demonstrou claramente a doação de sua vida, num gesto de denúncia contra as torturas e sua preocupação com os outros padres que poderiam ser presos, e também torturados. Ele já tinha passado três dias em sessões de tortura ininterruptas. Ao mesmo tempo que os torturadores praticavam violências contra ele, outros dominicanos eram procurados. E ele, consciente daquelas atrocidades e testemunhando mortes de companheiros, tomou aquele decisão de ferir o próprio corpo, denunciando o terror. Todos que conheciam sua história entendiam aquele posicionamento, como sendo a primeira denúncia no Brasil e no exterior ( seu relato de tortura ganhou o prêmio de melhor matéria do ano/1970 da revista Life). Embora muitos soubessem do que ocorria nos porões da ditadura. A Igreja, psiquiatras, médicos, advogados e os presos compreenderam aquela atitude.
INGLESES PERSEGUIDORES
Agora, o Tito ao aparecer morto (antes de ir pra França, Frei Tito primeiro exilou-se em Santiago do Chile, depois voou para Roma e, finalmente Paris) num local ermo, que parece ter sido escolhido propositalmente: dependurado perto de uma rampa de lixo a poucos quilômetros de Lyon, onde ficava o convento dos dominicanos. Só que nos meses anteriores ele vivia em constante ansiedade. Percebi isso quando passei dois meses com ele (dezembro/janeiro – 1973/74), a sua angústia de dizer-me que estava sendo perseguido. Eu pensava: se aquele comportamento era uma alucinação psicótica, psíquica das torturas passadas dentro de um quadro evolutivo ou era uma realidade? Será que tinha alguma pessoa atrás dele? E conversando com ele, observando, analisando e vendo os seus gestos, eu via que ele demonstrava ansiedade: para onde a gente fosse alguém estaria seguindo.
E tenho provas concretas para pensar assim: quando ele estava em Paris, dois ingleses o procuraram para fazer uma entrevista com ele. Naquela ocasião, meu irmão não quis dar depoimento porque estava exilado, banido e a sua situação não permitia. E não queria se expor tanto. E os dois ficaram perseguindo ele o tempo todo. A partir daí, conforme constatei na França, ele passou a ter, mais acentuadas as crises psicóticas de alucinações. Como também acentuaram-se ainda mais essas crises com a ida do Fleury ( Sérgio Paranhos Fleury, delegado do Departamento de Ordem Política e Social – Dops ) à França para receber condecorações. A presença do torturador em Paris, ele associou imediatamente a algum mecanismo de complô ou a alguma coisa contra ele. Outros brasileiros exilados morreram em circunstâncias misteriosas.

FREI OSWALDO CONFIRMA

Abalada, o que fiz em Paris: procurei falar com o Oswaldo Rezende , outro dominicano brasileiro exilado, e pedi-lhe que fizesse um relato da situação do Tito. Conversei uma tarde inteira com o Oswaldo e ele confirmou a história dos dois ingleses que Tito havia contado. Só que o dominicano disse que ‘aquilo era bobagem do Tito’. Discordei e questionei sobre a presença dos dois estranhos perseguindo o meu irmão. Oswaldo ficou calado. Outro testemunho, que nunca mais esqueci, foi dado por um frade franciscano, aqui em Fortaleza, depois da morte do Tito. Ele apareceu, certo dia, na porta da minha escola querendo falar comigo. E revelou: Eu quero dar um testemunho. Eu preciso dizer isso. O Tito estava sendo perseguido em Paris. Certo dia, eu vinha com ele, atravessando uma rua, vi dois homens, e um deles pegou uma máquina fotográfica apontou para nós e bateu fotos. Aí, mais uma vez, eu questiono: qual interesse dessas duas pessoas em seguir Tito e até fotografá-lo?
MEDO EM LUGARES PÚBLICOS
Quando conversava com o Tito eu notava, em determinados momentos, que ele aparentava muito bem... Mas, qualquer coisa desestruturava a segurança que ele próprio montava para si. Então, certo dia, num restaurante, disse pra ele: ‘sinto, meu irmão, que você tem medo de alguma coisa. O que é que você tem? Eu estou aqui com você’.
Bastou o dominicano, nosso cicerone, atrasar dez minutos para buscar-nos. O curto tempo de espera provocou um desacerto, desequilibrando totalmente o meu irmão. Olhava para um lado, para outro, demonstrando medo de que alguma coisa chegasse até ele. Então, Tito disse: ‘Nildes se eu lhe disser o que realmente está acontecendo comigo, você vai me entender!’ Bom, eu associei com a questão da perseguição. Mas não quis forçar muito no questionamento, porque temia que ao mexer, pudesse desencadear uma crise. Mas dava para perceber que alguma coisa estava limitando a vida dele.
Senti a força maior do estado emocional do meu irmão no dia em que tínhamos programado um passeio e ele não quis ir. Olhei pra ele e vi que realmente não tinha condições de me acompanhar. E disse-me essas palavras: ‘Acho que já está na hora de você voltar, porque você já cumpriu a sua missão’. Mas aquelas palavras ofereciam duas interpretações: ele estava querendo distanciar-se de mim, talvez pelo medo de que algo pudesse acontecer comigo. Entretanto, ele sentia a necessidade da presença da minha pessoa, porque depois ele foi para o quarto, deitou-se e pediu-me para ler o evangelho de São João que fala exatamente da ressurreição de Lázaro.

PREMONIÇÃO E ARREPENDIMENTO
Chegou o dia de eu regressar para o Brasil. Acontece que não tive o cuidado de explorar mais a história das perseguições, enquanto estava com ele. E até hoje, eu me arrependo de não ter insistido com o Tito sobre os dois perseguidores. Ele poderia ter dito alguma coisa. Vim embora, com a premonição que algo terrível ia acontecer. Mas a minha premonição baseava-se na intuição que meu irmão ia matar-se, a mandado da voz fruto da sua mente doentia, ou daqueles que o perseguiam. E foi o que aconteceu. Seu corpo foi encontrado ao lado de uma rampa de lixo. E reconheço, hoje, que nós da família fomos imaturos em não querer aprofundar investigações sobre a circunstância de seu suicídio. Não sabemos se o corpo dele foi para o Instituto Médico Legal, se fizeram exames. Apenas ouvimos do frade dominicano francês Xavier Plassat, que dava acompanhamento ao Tito, é que certa vez, antes do desfecho, chegou a casa onde o meu irmão morava e viu uma corda em cima da estante. Aí Xavier indagou: Tito, você não está pretendendo usar essa corda? E ele respondeu: ‘Não, absolutamente’. Também foram encontrados rabiscos dele, e, em alguns estava escrito: Corda ou Bacuri? Essas indagações podem ser interpretadas como dois tipos de opções para a morte. Morte por enforcamento ou por meio de outros sofrimentos que o matassem como a repressão policial brasileira matou um rapaz chamado Bacuri, depois de longas e impiedosas sessões de tortura.
Então, a morte de meu irmão foi interpretada como um ato de um doente mental que pôs fim a própria vida. Só que a família nunca aceitou essa versão, porque, durante muito tempo, tivemos reserva em falar sobre esse assunto. E a gente temia que psicologicamente influenciasse a formação dos nossos sobrinhos. E foi um assunto que a gente resguardou durante muito tempo. Os dominicanos também tiveram o mesmo posicionamento. A Ordem dos Dominicanos, por seu prior Frei Fernando, acredita e tem a certeza que meu irmão foi levado para a morte...
Mataram o Tito".

13 de ago de 2009



O rio que corre pela minha aldeia


A hoje, não entendi direito o porquê do Parque do Cocó um ambiente, dentro da área do município de Fortaleza, seja demarcado como se fosse de “propriedade” do Estado. Tudo ali leva a grife do Governo do Estado: caixa d’água, balões e placas com logomarca. Para a Prefeitura, parece, que só resta mandar os garis apanharem as montanhas de lixo, após shows patrocinados... pelas autoridades estaduais.
E quem responde e resolve as visíveis devastações e poluições, que continuam destruindo o ecossistema do manguezal da bacia do Rio Cocó? Será a Secretaria de meio ambiente do Ceará? E as invasões de prédios luxuosos? Quais os órgãos da saúde (do Estado ou do Município?) que estão empenhados em resolver o problema da “criação” de gatos, ao relento, e que vem provocando fedentina e doenças aos transeuntes e vizinhança?
O Rio do Cocó é belo, tão belo que me faz lembrar Fernando Pessoa quando escreveu: “... O Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia. Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”.
E o rio que passa pela nossa aldeia precisa da participação de todos unidos, principalmente das autoridades, para salvar o pouco que lhe resta.
Não de vaidades governamentais.

12 de ago de 2009

Animais são transformados em plantas

Um concurso online, fez com que diversos participantes transformasem animais em plantas, o site Worth1000 recebeu dezenas de inscrições em três edições de seu concurso.Veja abaixo algumas imagens feitas pelos participantes:




Golfinho Banana Uma das imagens que mais fizeram sucesso no site foi essa.

Sapo Pepino Essa imagem também é bem famosa.

Sapo Laranja reparem na perfeição, nem parece ser imagem editada.


Morcegos Manga Até as frutas foram alvos desses participantes.

Fonte: Blog Mau

Contos de fadas que nada...

Postei aqui, no blog, há dias um comentário sobre o lançamento, pela Ediouro, da revista Luluzinha Teen e sua Turma. Ela, Luluzinha, mocinha, o Bolinha magro, a Glorinha, a Aninha e o Alvinho todos jovens. Levei na gozação e até imaginei daqui alguns anos toda a turma já idosa, os personagens caquéticos...Fiquei sabendo, que a fotógrafa canadense Dina Goldstein pensou mais longe do que eu, nessa história de querer adaptar personagens da memória coletiva em situações, completamente diferentes daquelas conhecidas. Ficou uma beleza de ironia a sua série Fallen Princesses (Princesas Decaídas).
Ela transporta, satirizando, para os dias de hoje, algumas heroínas dos contos de fadas, popularizadas por Walt Disney.



Vejam, por exemplo, a Cinderela, coitada, de porre e sozinha.




E a Branca de Neve, carregada de filhos, descalça e o maridão cheio de preguiça.




E a Rapunzel, aquela dona de uma gigantesca trança. Reparem onde foi parar: num hospital, fazendo quimioterapia.

A Chapeuzinho Vermelho, obesa e viciada em guaraná.

11 de ago de 2009

Singular


João Soares Neto, escritor de nomeada nas lides literárias, escreveu, no Jornal O Estado (edição de 7/08/2009), uma crônica sobre os 10 anos da Singular. Não preciso dizer que fiquei "babando" de satisfação, mas digo.
Obrigado, João.


"Singular é uma palavra com várias significações. Pode ser pertencente ou relativo a um. Pode ser algo que não é vulgar, mas especial, raro, extraordinário, excêntrico, extravagante, esquisito ou bizarro. Mas, pode ter algumas dessas significações e ser uma experiência árdua e vitoriosa que completa dez anos. A escolha do nome, certamente, foi a propósito. Quem o escolheu estava querendo construir algo diferente, embora, para tanto, precisasse da habilidade e capacidade que acumulara em outras dezenas de anos.
Fim do mistério: estou falando da revista Singular, formato de bolso, boa apresentação e cuidados gráficos que mostram o amor de seu criador, o jornalista Eliézer Rodrigues, formação em comunicação social, anos de batente nos vários escaninhos que fazem uma redação.
Um dia, em 1999, esse número cabalístico que, noves fora, dá um. Isto é, singular, raro. E é o próprio Eliézer Rodrigues, na edição especial, número 28, quem conta: “A Singular surgiu, não por acaso, e sim por uma necessidade de continuar, alimentando a inquietação pela notícia, após anos no batente de redação”. E cita, com acuidade, o pensamento de Dino Buzatti, jornalista e romancista italiano, através de seu personagem Drogo: “Tenho a impressão que o importante está para começar”. Cada número – e já são vinte e oito – é uma batalha e história.
São novos colaboradores, diagramadores, anunciantes a conquistar e tensão até que a revista brote em formas e cores, oferecendo portabilidade ao leitor. Este número 28 contém preciosidades. Conto algumas. Há um reportagem de Renan Antunes, forte e consequente, ganhadora do Prêmio Esso de jornalismo, em 2004. Contém a passagem por Quixeramobim do tísico Manuel Bandeira que ali aportou em busca de ares puros para os seus alvéolos pulmonares e nunca entrou em sua igreja matriz (“onde nunca entrei e hoje tenho pena”). E diz isso em crônica, tão poeta que foi. Ethel de Paula desvenda um advogado-dama. Jorge Pieiro, vindo do Limoeiro dos Maias, fala sobre a praça que adota a todos que aqui aportam e a usam e abusam. Ana Miranda diz da Praia de Iracema de sua infância. Há projetos de ciência com Miguel Nicolelis e há mais, muito mais. Leia a Singular.

Compre um exemplar. Mas, se não tiver dinheiro, o Eliézer dará de graça com a mão calejada de palavras que trouxe ao mundo na ordem que quis e sabe fazer. E por ser benfazejo o trabalho de Eliézer Rodrigues é que o incluo no meu espaço semanal do jornal O Estado, um destemido e admirado diário que o povo do Ceará lê há mais de 70 anos.

Parabéns, Eliézer".



A reinvenção da arte

Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, só perde para Guernica, de Pablo Picasso, a pintura mais reiventada e interpretada no mundo. O quadro de Picasso denunciador dos estragos causados pelo borbadeio dos nazistas, na pacata Guernica, em abril de 1937, durante a Guerra Civil Espanhola, tornou-se símbolo da indignação contra a guerra.
Dizem que durante uma exposição, um oficial nazista indagou a Picasso: “Foi você quem fez isso?”. Ele respondeu: “Não, vocês fizeram isso, eu só pintei”. Após o fim da Guerra Civil, Picasso permitiu que a obra fosse emprestada ao Museu de Arte Moderna de Nova York, com a condição de que Guernica retornasse à Espanha somente quando a ditadura Franquista caísse. Em 1981, com a morte do ditador Francisco Franco, a obra voltou ao território espanhol, onde hoje reside no Centro de Arte Reina Sofía, em Madri.
O vídeo acima, feito por Lena Gieseke, mostra em 3 D, com arte, a dor e o sofrimento registrados na tela de Picasso.


Como nasce o canto
do mandarim


Desde que fiz a reportagem com o criador de aves exóticas em cativeiro, Carlos Henrique Nogueira, em agosto de 2005 para a Singular, que fiquei encantado com os mandarins. Naquele momento, fiquei sabendo que o diamante mandarim, originário da Austrália, é apreciado, não só pelo seu comportamento alegre, mas também pela imensa variedade de combinação de cores.



Obtive mais informações sobre ele, nesta semana. Está está sendo produzido o mapeamento genético, investigativo dos mistérios da natureza. O estudo está em desenvolvimento pelo microbiologista Carlos Frederico Menk, do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de São Paulo.
Segundo ele (em entrevista à revista Veja), uma das surpresas é o sequenciamento do genoma do mandarim, pois nasce sem saber cantar – ele tem que aprender. Como o mesmo se dá com a fala dos seres humanos, potencialmente o estudo do mandarim vai ajudar a entender as raízes genéticas da dislexia e da gagueira nas pessoas. Conforme o cientista, “ a genética é um livro que acabamos de abrir. Estamos agora decifrando as primeiras sílabas. Em breve, descobriremos como se formam as palavras e frases nesse idioma desconhecido”.

A magia nos dedos

O Voo do Besouro, do russo Rimsi-Korsakov (1844-1909), uma das mais populares peças da galeria dos grandes clássicos mundiais, é executada por orquestras ou em solos de piano, sax, guitarra e até em capela. Agora, conheço uma interpretação espetacular, inédita, ao violão, executada pelo cearense Natalício Moreira que fez dupla com o irmão Antenor (Los índios Tabajaras, de grande sucesso no mundo. Para vocês terem uma ideia da dimensão da glória dos dois, em 1963, o bolero mexicano Maria Elena, executado por eles, vendeu 1,5 milhão de cópia, desbancando She Loves You, dos The Beatles, em 17 semanas na hit-parede, em todos os países da língua inglesa.



Olhem aí o Michael

Jackson do tempo

dos faraós



As circunstâncias da morte (ele foi assassinado?), o circo armado para o último adeus, parternidade duvidada, briga familiar pelos espólios, homenagens que não param, tudo com a marca Michael Jackson. Pois não é que há mais de mil três o artista já era “homenageado”.


Um busto egípcio está chamando a atenção dos visitantes do Field Museum, em Chicago, nos Estados Unidos. O tal busto, feminino, produzido entre 1.550 e 1050 a.C, é a cara do cantor (sobrancelhas, nariz). Em entrevista ao jornal Sun-Times, um porta-voz do museu, disse que o astro pop nunca viu a escultura e que a obra está em exposição desde 1988.

10 de ago de 2009











Esta incrível história foi contada aos leitores e leitoras da Singular impressa, na recente edição comemorativa dos 10 anos da revista.

Ferrim vence o Alecrim
e se classifica como
líder do grupo
O Ferroviário conseguiu um excelente resultado na última rodada da primeira fase do Campeonato Brasileiro Série D 2009. Jogando fora de casa, no estádio Machadão, o time coral venceu por 2x1, no domingo passado, o até então líder Alecrim/RN e terminou na primeira posição do Grupo A3. Agora, o meu ferrim vai para a segunda fase do torneio. Vamos ver se não vai “amarelar”, como sempre aconteceu em outras competições.
Vamos rezar.
E “amarra as almas”, com diz o Gomes Farias.
Crédito da Foto: Rodrigo Sena (Tribuna do Norte)


O Nobre colega é
dama de espadas


Por Ethel de Paula


Com a palavra, Jaime Dutra, 41, advogado, vice-presidente do Grupo de Resistência Asa Branca (GRAB), entidade civil de utilidade pública voltada à defesa dos direitos civis da comunidade homossexual em Fortaleza. Na vida pública, assim como na esfera profissional, ele é ela: Janaina, único travesti a exercer a advocacia no Brasil.


Hoje, coordena dois projetos: Direito e Cidadania, com financiamento do Ministério da Justiça através da Secretaria Nacional dos Direitos Humanos ; e Travesti – Prevenção e Organização Social, pago com verba do Ministério da Saúde. Na contramão dos estereótipos, prefere ler a frequentar boates ou guetos; é bem aceito pelos pais, que moram em Canindé; seus ídolos não são exatamente artistas, mas figuras que lutam por causas sociais. Com orgulho, bate no peito outrora cabeludo e diz: “Sou uma bela dama de espadas”.


Como foi a sua infância?


Nasci em Canindé e tive uma infância muito pura, de andar a cavalo, empinar papagaio, de banho de açude, tomar leite de cabra no peito, brincar de boneca (ri) . Então despertei mais para a sexualidade na adolescência. Minha mãe era professora, ensinava em um colégio de padre e freira. Meu pai era funcionário do Dnocs. Morávamos na rua principal da cidade. Nesse ponto tive sorte, minha mãe sendo uma educadora me estimulou muito a adquirir conhecimento. Fiz universidade particular, Direito, na Unifor. Entrei em 81.2 e saí em 86.1. Mas sempre fui muito afeminado desde pequeno. A história de virar travesti é que já foi depois da faculdade, quando eu já tinha um escritório no Centro, o que foi até mais complicado, porque depois de você já ter um personagem masculino construído, apesar de uma aparência feminina ou homossexual, desconstruir tudo isso era passar às pessoas uma androginia maior. Ainda mais numa profissão que mexe muito com a falsa moral, a hipocrisia social, que é ligada às normas, aos costumes. O Direito é muito careta, as excelências são muito caretas. E numa terra de cultura machista como a nossa é muito mais fácil você confiar em um advogado que fale grosso, coce o saco, tenha bigode... É como se por conta da minha orientação, sendo irreverente, tendo, digamos, essa aparência afrontosa, eu pudesse prejudicar meus clientes. Mas isso é que me estimulou ainda mais a mergulhar fundo nos livros. Para não ser só aquele viadinho de peito, de cabelo grande.


Quais os casos mais comuns que levam até você como advogada?


Extorsão policial, briga entre elas, com clientes. Deixo sempre no ar esse senso comum que diz que travesti é uma classe violenta: essas ações são na verdade reações a toda uma negação social que começa na família. Mas os casos são variados. O que tem é muita discriminação e violência: o homossexual é impedido de entrar num hotel, é agredido fisicamente, verbalmente. Tem muito caso de agressão contra travesti. Falta de consciência, de convivência verbal. Fortaleza é tida como a cidade onde mais são cometidos assassinatos contra homossexuais. No jornal, recentemente, teve um caso de um arcebispo de Fortaleza que deu uma declaração ligando a homossexualidade à cleptomania, aberração da natureza, coisas assim. Acionamos então o Ministério Público para que tomasse as providências. Entramos com um pedido de retratação e ele voltou atrás, disse que não era bem aquilo que queria dizer, se retratou junto ao Ministério Público. Quer dizer, ainda há muito trabalho pela frente. Até quando se vai falar publicamente fala-se errado. Por exemplo, não se usa esse termo homossexualismo e sim homossexualidade. O sufixo ismo vem do latim e significa discussão, doença e patologia. Ao usar esse termo continua-se reforçando a discriminação.




Qual a sua utopia?

Ter uma sociedade mais tolerante.

* Dois anos depois desta entrevista à SINGULAR, Janaína faleceu, em fevereiro de 2004, aos 43 anos de idade.


LUZES DA CIDADE
A pedido da Singular, o poeta Aírton Monte e o fotógrafo Evilázio Bezerra passearam por recantos de Fortaleza e registraram, cada um ao seu modo, o que viu e o que sentiu da nossa cidade.









Praça Cristo Redentor - No cimo da torre, a imagem do homem santo mira de frente, olhar sisudo, a cruz do Seminário da Prainha feito o vigilante do nada e do desterro.


Lagamar - Crianças brotam da lama do mangue, estátuas sobre palafitas, imagens de nossa culpa, de nossa omissão e de nossa imensa culpa.

Vendedor na Praia - Mergulhada na areia escaldante, entre o sol e o mar, a vendedora ambulante desfralda o verde-amarelo pavilhão de lutos constelados.

Praça do Ferreira - Sob as luzes iridescentes, quem puxa a carroça do lixo? Será um bicho? Não, é um homem, centauro da miséria.


Passeio Público - Mulher solitária aos pés da estátua grega. Nos olhos de ambas reluz um brilho fosco da faca cega.

9 de ago de 2009




Sublime imagem

Existe uma imagem de pai, embora ele não fosse o genitor biológico, que considero a mais cristalina da missão de ser pai. É aquela que Carlitos, Charlie Chaplin, no filme O Garoto (1921), tenta impedir dois agentes de levarem a criança. O filme conta a história de um bebê, abandonado pela mãe, sendo criado pelo vagabundo. A sagrada comunhão pai/filho ali se eterniza na amizade, no carinho, na dor, na fome, na alegria...enfim, no amor.