20 de jun. de 2009



Quase o primeiro crime passional




Deve ter sido em 1979, com uma profissional autônoma que prestava seus generosos serviços na esquina da Senador Pompeu com São Paulo, naquela região em que o canelau sabiamente apelidou de FEIRA DOS PRIQUITOS. Gazeamos a aula de Português do professor Gesuíno (ou seria Genuíno), no Farias Brito da Duque de Caxias e fomos – eu e o Baretta, colega de estágio no Banco e de sala de aula – cair nos braços de um par de quengas.
O programa foi perfeito, à exceção de um pequeno detalhe. Acabei esquecendo a pasta com os livros do colégio em cima do guarda-roupas da casa de cômodos. Voltei correndo e o quarto já estava ocupado. Felizmente, não era a minha iniciadora, o que poupou-me de cometer aquele que seria meu primeiro crime passional.
Novamente de posse do meu material didático, tomei meu rumo, com a alegria de volta, infinitamente superior à ansiedade da ida.
A varanda do sertão

Ricardo Machado, amigo boa praça, conviva e proseador do Bar do Bigode, lá na Cidade 2.000, mesmo morando e trabalhando em Fortaleza (ele é promotor de Justiça), encontrou uma maneira peculiar e lúdica de não esquecer a paisagem, as memórias e o aroma do sertão.
Transformou a varanda do seu apartamento num pequeno memorial sertanejo denominado de Grêmio Lítero-Recreativo Fortaleza-Pedra Branca via Quixeramobim.

Vejam o vídeo produzido e veiculado pela TV O Povo:



Na Singular tem uma seção chamada O Louco da minha rua. As pessoas são convidadas para relatarem suas lembranças sobre aquele personagem maluco que provocava algazarra na moçada, mas, ao mesmo tempo, metia medo na galera. O meu amigo, o jornalista Roberto Maciel, lembrou a figura que passou pela sua vida:
“Maluco, maluco mesmo que se preza tem humores ciclotímicos – mesmo que não saiba lá o diabo que é isso.
Twist era assim.
Parambulava pelas imediações da igreja do Cristo Rei, pertinho do Colégio Militar, alternando-se entre boas gaitadas e umas expressões de zanga.
Quer dizer, perambulava por um trecho obrigatório do percurso que eu costumava fazer entre a minha casa, na rua Rodrigues Júnior e o da minha avó Maria, na Pinto Madeira.
E bastava que algum moleque gritasse “Dança Twist!”, para ele ensaiar uns passos que, lembrando hoje, eram até aprumadinhos. Sacolejava bem, o danado, de calças quadriculadas e óculos estilo Emerson Fittipaldi. É o novo!
E eu, menino “veio”, aproveitava toda oportunidade para implicar com ele – como fazia, afinal, qualquer menino malino daquelas plagas. Era implicar e correr. Porque depois da arenga, o Twist costumava dar uma carreira das boas na mundiça. Era lei. Fazia parte daquele ritual maldosamente infantil. Se não corresse, tinha algo de errado.
Mas estava ali um cara gente boa, diziam os que o conheciam mais de perto. Vai ver, tinham razão: se ele alcançasse algum chateador, nada mais fazia do que passar um pito. Só isso.
Sabe Deus de onde ele tirou aquela mania de dançar. Ou quem a descobriu. Sabe Deus o nome dele. Ou onde morava. Sabe Deus que fim tomou.
Mas veja: era só quando estava junto de outros meninos que dava para abusar do show do Twist. A gente gritava a tal senha, quantas vezes fosse necessário, para ver o doidinho dançar até suar.
E suar em bicas.
Maldade nossa.
Sob o olhar rigoroso da minha mãe, e só se ela não visse o Twist nas proximidades, já que ralhava com a gente, preventivamente o máximo possível era aperreá-lo uma vez. Depois do carão materno –“Não mexe com o rapaz, menino! Deixa o coitado” – e da promessa de que nunca mais faria isso, a gente se aquietava. Até a próxima vez, Twist.
Mas que minha mãe ria, ria. Um sorrisozinho meio disfarçado, tá certo. E piedoso. Mas que não dava pra esconder.
Às vezes, me pego na dúvida: não há mais maluquinhos como o Twist ou olhos adultos, desprovidos daquela santa e angelical traquinagem, não os enxergam mais?
"Eu tinha muito medo de que um cachorrinho preto chegasse à praia e puxasse o meu calção de banho, mostrando minha bunda branca. Quando minha mãe começou a usar Coppertone naquele verão, nossa cor foi mudando aos poucos....”
Sábado de sol, dia
de piquenique


Porque hoje é sábado, e não sei o porquê, neste início de manhã, pintou um pouco de nostalgia, e lembrei-me de uma edição da Singular só sobre coisas do passado.
Entrevistei o jornalista Alberto Villas, autor do livro O mundo acabou.
Ele recorda, por exemplo, dos piqueniques se fazia aos sábados, sábado de sol.
“Acordávamos cedo e olhávamos para o céu. Azul com poucas nuvens, era piquenique na certa. Numa cesta de vime, arrumávamos a matula. Pão americano, mortadela, presunto swift, biscoito Champagne, maças e garrafinhas de Mate-Couro. Uma toalha vermelha xadrex, guardanapos também vermelho xadrex, garfinhos e faquinhas de plástico. Uma radiolinha colorida movida a pilha rodava discos do Mamas & Papas, transformando aquele lugar numa espécie de Califórnia Dreamin.
Todos vestidos de Far-west. Não tínhamos dinheiro para comprar as calças Lee legítimas e íamos de Far-West. Tinha o modelo masculino, com barguilha, e o feminino, que tinha um fecho ecler do lado direito. Éramos felizes dentro daquelas calças Far-West, porque ainda não havia para mim calças Lee.
E a zebrinha do Fantástico tinha o seu charme...








19 de jun. de 2009

O plagiário Ariano Suassuna


O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, já fez sucesso, no teatro, no cinema, e principalmente na televisão com o show de interpretação de todo o elenco da Globo, em especial Matheus Nachtergaele, no papel de João Grilo e Selton Melo, interpretando Chicó. Vocês sabiam que aquela cena em que Chicó é “ressuscitado”, por João Grilo, ao som de uma gaita, após ser “apunhalado”, é plágio de um cordel? A cena é dos golpes que o malandro João Grilo usou para enganar os otários.

Pois é. O original está no cordel O cavalo que defecava dinheiro, de Leandro Gomes de Barros, um dos maiores cordelistas brasileiros, falecido há 91 anos.

A cena faz parte da história de um pobre, em dificuldades financeiras, e que inventou artimanhas para ganhar dinheiro. Uma delas ele combinou com a mulher, para “matá-la” com uma facada no peito. Só que a facada atingia uma seringa, cheia de sangue de galinha. Para logo após “ressuscitá-la”, ao som de uma rebeca. E assim fez, na frente de um otário que comprou a “rebeca milagrosa”.

O comprador levou o instrumento musical para casa e dias depois, após uma briga com a mulher dele, aplicou-lhe quatro punhaladas. O verso do cordel conta a cena:

O velho muito ligeiro
Foi buscar a rebequinha,
Ele tocava e dizia:
Acorde, minha velhinha;
Porém a pobre da velha,
Nunca mais comeu farinha.